A história de um colecionador de histórias

“Acredito que tenho uma loucura mansa, acho que na infância eu fui inoculado com um vírus da leitura e por isto nunca mais parei de ler”, é assim que José Mindlin – maior bibliófilo brasileiro – explica o seu amor pela leitura e a razão de possuir um acervo tão grande de livros.

Não é para menos, seu acervo possui em torno de 38 mil títulos; algo próximo de 50 mil volumes com obras raríssimas, diga-se de passagem. Para falar a verdade eu não conhecia José Mindlin, nunca havia ouvido falar sobre este senhor filho de imigrantes do século passado de 75 anos que possui um humor peculiar ao contar sobre sua vida e a vida de seus livros, e é dessa forma que ele encara os livros mesmo. Ele diz que os seus livros têm vida própria! Pode? Ouvindo uma entrevista pelo rádio uma viagem de Cascavel a Maringá já adentrando a madrugada (foi assim que tomei conhecimento de sua existência) ele contou que em uma determinada exposição de livros raros que iria fazer precisou escolher alguns livros de sua coleção e isto foi extremamente difícil pois os livros, disse ele, são extremamente ciumentos e eu precisei falar para eles que desta vez iriam alguns mas da próxima seriam outros.

Histórias ou exageros (para nós) a parte o fato é que José Mindlin é um leitor voraz, ele conta que já chegou a ler de seis a oito livros por mês, porém este volume diminuiu em função de problemas com a visão, mas mesmo assim ele lê todos os dias. Em um tempo em que a tecnologia avança a passos largos com zilhões de informações sendo transmitidas de um lugar para o outro em frações minúsculas de segundos, José Mindlin se destaca com uma sabedoria e cultura adquiridas ao longo de muitos anos dedicados à aquisição e leitura de seus livros. Seu amor pelos livros já o fizeram viajar pelo mundo procurando um determinado volume; porém ele mesmo faz questão de ressaltar que não é um escravo do livro. Em algumas ocasiões ele diz, embora o livro fosse uma raridade, o valor pedido era excessivo então eu dizia para o vendedor: eu já sobrevivi sem este livro até agora, portanto, vou continuar sobrevivendo sem ele.

Mindlin chama a atenção pois sua riqueza é incomum! Embora possua em sua coleção livros com um alto valor comercial (justamente por sua raridade) a verdadeira importância de sua coleção não pode ser expressa em moeda. E ele deixa isto bem claro ao doar agora parte de seu acervo que corresponde à coleção Brasiliana para uma estrutura que está sendo construída dentro da Universidade de São Paulo, a USP. Contudo o acesso a estes volumes será limitado a pesquisadores justamente pela quantidade de livros raros que o acervo possui.

A doação de Mindlin é um momento histórico para a nação num momento em que as atenções se voltam para a educação com o combate ao analfabetismo, a cobrança por investimento em infra-estrutura educacional, a implantação de políticas públicas que privilegiam as classes menos favorecidas, o crescimento na oferta de vagas no ensino superior tanto público quanto privado e a adoção pelos eternos candidatos ao governo do país de   um discurso que coloca a Educação como tema central para contribuir  o avanço desta nação.

Eu penso que atitudes como esta devem ser alardeadas aos quatro cantos deste Brasil, uma doação assim deveria ser manchete nos jornais e noticiários, mas não é isto o que acontece muitas vezes. Acontecimento com o mundo das celebridades, por exemplo, chama muito mais e “vende muito mais”. Somos a geração do consumo e notícias como a de José; Mindlin não fazem parte deste contexto, sua vida e atitude neste momento da vida é algo para digerir refletindo e não temos tempo para isso, infelizmente. Triste isto você acha? Talvez não! Como disse o jornalista Alexandre Garcia numa palestra que tive a oportunidade de assistir, somos um povo sentimental, porém muitas vezes expresso ao contrário, gostamos muito de um bom enterro show daqueles que são televisionados com comentarista e tudo mais – o dia todo! Mas muitas vezes somos incapazes de nos atermos a notícias que celebram a vida.

A vida de José Mindlin e sua atitude é uma celebração à vida. São mais de 50 anos dedicados a juntar em sua casa ao lado de sua esposa um pouco da história do mundo e grande parte da história do Brasil, pois além de tudo José Mindlin é um brasilianista. Conheci, na verdade muito pouco de sua história, mas o pouco que ouvi e conheci me fez refletir e escrever estas linhas para que mais pessoas como eu possam conhecer um pouco deste brasileiro notável que disse certa vez: “num mundo onde o livro deixasse de existir eu não gostaria de viver”.autor Max

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